20 de Março de 2019
Escritor potiguar defende Projeto de Lei Estadual para financiamento de produções culturais
[0] Comentários | Deixe seu comentário.Ideia é financiar livros, peças teatrais e shows musicais a juros pequenos e prazo estendido.
Lançar luz sob a produção cultural potiguar por meio de um projeto de financiamento a juros baixos e prazo razoável: essa é a ideia do jornalista e escritor de livros infantis, Juliano Freire, para incentivar o lançamento de obras literárias, peças de teatro e shows musicais de artistas do Rio Grande do Norte. A materialização disso viria com uma Lei, discutida e aprovada pela Assembleia Legislativa.
“Muita gente talentosa deixa livros, músicas e peças no fundo do baú porque não dispõem de recursos para torná-las realidade. O Nordeste e o Rio Grande do Norte possuem vocação para as artes, mas gráfica, estúdio de gravação e produção tem custos proibitivos para quem não tem o dinheiro necessário”, constatou Freire, que já lançou três livros e conhece de perto as dificuldades de pequenos produtores culturais.

Para ele, projetos como esse podem despertar ainda mais o gosto pela leitura, num país em que 44% da população não lê e 30% nunca comprou um livro. “Numa sociedade que anseia se desenvolver, pouco pode ser feito sem leitura. E ideias para incentivá-la devem ser observadas, apoiadas e melhoradas para abrir perspectivas para as novas gerações”, disse o escritor. Na entrevista abaixo, Juliano Freire dá mais detalhes sobre o projeto de financiamento e fala um pouco o cenário cultural no estado.
Em linhas gerais, qual é a ideia dessa proposta de lei para criação de um fundo de apoio às produções culturais? Por quais motivos você acredita na sua viabilidade?
A ideia se lastreia na concepção de um microcrédito para artistas que atuam nas áreas musical, teatral, literária, entre outras, que precisam de apoio para produção, realização e distribuição de suas obras. É possível porque, em tempos de crise, não se trata de doação de dinheiro. Os artistas pagariam o empréstimo com o resultado do seu trabalho, a juros menores e prazo razoável para pagar;
Como você sentiu a necessidade de fazer essa proposta? Quais são as principais dificuldades desses pequenos autores em terem suas obras publicadas?
Se na capital, já é difícil ter dinheiro para o financiamento cultural, imagine no interior. R$ 5mil, R$ 10 mil, R$ 20 mil é muito para artistas de baixa renda. Muita gente talentosa deixa livros, músicas e peças no fundo do baú porque não dispõem de recursos para torná-las realidade. O Nordeste e o Rio Grande do Norte possuem vocação para as artes, mas gráfica, estúdio de gravação e produção tem custos proibitivos para quem não tem o dinheiro necessário.
Como você acredita que a sociedade e a classe política podem ajudar a dar visibilidade a iniciativas como essa?
A primeira pode contribuir dizendo em alto e bom som: “Ei, nós temos produção cultural, queremos incentivo para fazer peças, shows de humor, lançar livros, cantar, fazer música e mais do que isso, levar esta criação para o público”. A classe dirigente pode discutir a ideia, aperfeiçoá-la, transformar em algo prático e real. Vale lembrar que com o pagamento dos empréstimos, esses recursos retroalimentariam financeiramente outros projetos. Como em um círculo virtuoso. Nosso povo gosta, aprecia, curte cultura. E sem preconceitos, pode acreditar. Uma das cenas mais lindas que vi recentemente foi a de um coral no meio da rua em Potilândia. O grupo chegava em um ônibus, descia e cantava clássicos natalinos. Era financiado por uma grande empresa.
Por quais motivos as lei de incentivo à cultura não são eficazes para esses escritores e produtores de conteúdo cultural?
As leis de incentivo são avanços, mas não contemplam um número expressivo de autores e artistas. Geralmente, atendem a projetos maiores em termos financeiros, envolvem burocracia. O que nós propomos é simples. Financiamento a juros acessíveis com prazo de um, dois ou três anos de parcelas mensais para produtores culturais e que esses produtos cheguem à população. Algo do tipo pode alcançar quem fica à margem das leis culturais.
Na sua opinião, como ideias que fomentem a leitura podem ajudar a transformar o meio em que vivemos?
Leitura é a base da educação e livro é um artigo que ainda não é acessível a todos. Apesar disso, escolas públicas e privadas, organizações não governamentais e professores aguerridos tem atuado com eficiência para ampliar o hábito de ler entre as crianças. Meu sonho é ver uma praça cheia de crianças com um livro aberto nas mãos. Segundo a mais recente edição da pesquisa “Retratos da Leitura”, 44% da população brasileira não lê, ou seja, não tem este hábito tão saudável. 30% nunca comprou um livro. É muita coisa. É assustador. Ainda há muito a ser feito neste campo. Numa sociedade que anseia se desenvolver, pouco pode ser feito sem leitura. E ideias para incentivá-la devem ser observadas, apoiadas e melhoradas para abrir perspectivas para as novas gerações.
Há quanto tempo você escreve e quantos livros já tem escritos e/ou publicados? Quais os títulos?
Escrevo livros para crianças desde 2002. “Doninha e o Marimbondo” foi o primeiro a ser lançado, em 2006, depois vieram “Pereira – o menino bom de bola” e “Felizardo contra a bruxa da feira”. Meus livros ficaram esperando uma chance antes de serem lançados. Lancei um por editora, e os outros em edições do autor. Falo com propriedade sobre dificuldades, custos e sonhos de quem cria produtos culturais.
Você já procurou algum deputado ou algum parlamentar já se mostrou interessado em tocar esse projeto?
Soube que alguns falaram sobre a ideia, mas não contatei nenhum pessoalmente. Lancei uma semente, uma proposta, a base. Um projeto assim pode, além de ampliar nossa produção cultural, gerar, quem sabe, até renda. Proponho que parte do pagamento do financiamento seja feito à sociedade. Por exemplo: se um grupo teatral previu fazer dez encenações de um peça em sua cidade, 10% ou 20% delas deve ser feita para quem não pode pagar. É a contrapartida para a sociedade. Assim, penso que a arte se torna acessível a todos. O que não vou fazer - e aí acho que cabe a um legislador dizer - é: “esse projeto terá um aporte inicial de tanto, juros de X%, tantas prestações para o ressarcimento do erário, vai começar desta maneira, etc.”. O intuito foi o de tentar contribuir para ampliar nosso cenário cultural. A exemplo de nossos vizinhos nordestinos, temos muita cultura para mostrar.
O que você acha que falta para o Rio Grande do Norte se tornar um estado reconhecido por apoiar a cultura e a literatura?
Mais apoio aos artistas. Por outro lado, é preciso que a autoestima do potiguar aumente. Não se deve rejeitar o que é de fora, mas por que o que é feito aqui tem tão pouco espaço? As rádios, de maneira geral, não tocam a música potiguar. Por que? Parece que temos vergonha da gente, algo complexo de desvendar em poucas linhas. O artista local só é respeitado em sua casa quando faz sucesso nacional. Precisamos de mais políticas públicas em favor da cultura, mais acesso do público a peças, shows, livros e música. É preciso ter ousadia.
Que recado você deixaria para os jovens e crianças de hoje, que se interessam muito mais por uma tela de celular e tablet, do que pelo contato diário com um livro?
As pessoas gostam cada vez mais da praticidade, do rápido e do fácil. Com um celular ou um tablet você consegue fazer uma porção de coisas, inclusive ler livros. Eles são mais um canal para a atividade da leitura, mas creio que ainda não substituem o impresso. Eu utilizo as duas modalidades, o papel e o meio eletrônico. Os mais jovens estão inseridos em um contexto de modernidade sem paralelo na história. É mudança, avanço, coisas novas todo dia. O que não se pode perder é a essência contida nos livros. A concorrência é pesada. Um gadget desses poder armazenar centenas de livros. Por outro lado, ainda não vem com cheiro de papel nem oferecem o prazer de passar as páginas com os dedos. Tenho visto muitas crianças folheando livros. Apesar do contexto, a minha esperança é que a leitura seja um hábito, em suas diversas plataformas. O livro impresso, na tela ou em hologramas não vai morrer.