30 de Julho de 2026

Coleção criada por internos de Alcaçuz leva reflexões sobre liberdade à passarela do GINGA Moda RN

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“Como seria vestir a liberdade?”. “Que cores, texturas e formas ela teria?”. As respostas a essas perguntas foram apresentadas nesta terça-feira (28), em Natal, em forma de “Revoada”, coleção desenvolvida por 15 homens privados de liberdade na Penitenciária Estadual de Alcaçuz, no Rio Grande do Norte, e lançada no GINGA Moda RN.

A ação, fruto do projeto Tecendo Liberdades, realizado por meio de parceria entre o SENAI-RN e a Secretaria da Administração Penitenciária do estado (SEAP), levou à passarela do evento cerca de 25 peças confeccionadas com técnicas manuais, incluindo crochê, macramê, bordados e fuxico – parte delas estampando as palavras “liberdade”, “desafios”, “ninguém é perfeito” e “recomeço”.

O trabalho foi produzido no primeiro semestre do ano a partir de insumos doados por indústrias do setor têxtil e de confecções. Dentro de uma oficina de costura instalada no presídio, materiais como linhas, retalhos, botões de madeira, contas e miçangas ajudaram a dar vida à coleção, modelada e costurada pelos internos, com orientação da estilista, pesquisadora e instrutora de cursos do SENAI Moda, Jéssica Cerejeira.

Nesse processo, disse ela, os participantes criaram até matéria-prima. “Aquelas linhas fininhas, de máquina, eles juntaram e fizeram o fio do crochê que utilizaram para fazer um manto inteiro e uma calça”, detalha. “Para fazer uma das bolsas do desfile, foi construído um tear na oficina de marcenaria do próprio presídio e tecido por um dos internos”.

O trabalho envolveu pesquisa, desenvolvimento de conceito, criação e confecção. O resultado foi uma coleção composta por calças, casacos, vestidos, saias, bolsas, chapéus, manto, bonés e um poncho bordado, com predominância das cores vermelho, azul, verde, branco e marrom. “Nos bonés, a aba foi confeccionada com pedaços reaproveitados de baldes de tinta do próprio presídio, reforçando a proposta de reutilização de materiais”, disse Cerejeira.

A inspiração veio do projeto de doutorado que a estilista desenvolve, tendo como uma das referências o espetáculo Revoada, do Grupo Arkhétypos de Teatro, atualmente sendo remontado em Alcaçuz, sob orientação dos professores doutores Robson Haderchpek e Sebastião Sales, do Departamento de Artes da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).

O espetáculo se baseia na obra “A conferência dos pássaros”, do poeta persa Farid ud-Din Attar, que propõe reflexões sobre liberdade, identidade, pertencimento e transformação.

Os poemas, segundo a estilista, foram apresentados ao grupo participante e estão refletidos, sob a ótica deles, nas roupas e acessórios que apresentaram pela primeira vez ao público.

Foto: Wendell Guilherme

Liberdade

“A liberdade, na visão deles”, disse Cerejeira, “seria leve, com caimento fluido, mas também teria o peso de feridas abertas”. “A gente trouxe um pouco dessas características nas peças. Em uma camisa branca, por exemplo, de dentro de uma prega que pusemos na parte de trás saem fuxicos vermelhos que remetem a essas feridas”, descreveu.

“Os participantes trouxeram muito também da referência dos pássaros, do voo. Eles estavam muito inspirados pelo livro. Ficaram imaginando como seria esse voo. E, às vezes, eles estão lá dentro, refletindo, buscando outras formas de viver, quando sair, tendo outras perspectivas de vida que inicialmente não tinham”.

O desfile foi transmitido ao vivo pelo canal do SENAI-RN no YouTube e acompanhado pelo grupo, de dentro do presídio. “Cada peça carrega um pouco das mãos e da história deles”, disse a estilista, na abertura.

O chefe do Departamento de Assistência Jurídica da Penitenciária de Alcaçuz, Andrier Marinho, destacou, também na abertura, que o projeto extrapola os limites do cárcere e da moda.

“Estando lá diariamente, convivendo com esses internos na produção dessas peças, a gente vê o quanto isso muda o ambiente. O quanto eles estão se sentindo úteis na produção de algo que vai além dos muros da penitenciária. A gente via esperança dentro de cada um deles para uma nova possibilidade de vida, para um novo voo”.

A iniciativa recebeu o apoio das empresas Vicunha, Uniformize, Bonor Botões, Santana Têxteis e Casa do Zíper. O lançamento da coleção, segundo Jéssica Cerejeira, é considerado a partida para atrair novos olhares da indústria local, para que conheçam o trabalho mais de perto e possibilidades de emprego e empreendedorismo sejam potencializadas fora do sistema prisional.

Ela conta que há, também, perspectivas de que novas oportunidades de qualificação sejam oferecidas na área.  “A gente precisa fazer com que as pessoas enxerguem que lá dentro tem pessoas em busca de oportunidades, pessoas que estão em processo de ressocialização, que têm habilidades e podem ser conectadas às marcas”.

Impulso

Os participantes do Tecendo Liberdades são homens com idades entre 28 e 60 anos que já haviam recebido capacitação prévia na área de costura em outro projeto do SENAI-RN, desenvolvido em parceria com o Ministério Público do Trabalho do Rio Grande do Norte (MPT-RN).

Foto: Wendell Guilherme

Por meio da iniciativa, mais de 1.300 pessoas privadas de liberdade em diferentes municípios do estado foram qualificadas nas áreas de alimentos, construção civil e confecção, como estímulo a terem mais possibilidades de emprego e empreendedorismo quando estiverem em liberdade, e, por consequência, menos chances de reincidência criminal.

“Nós fizemos a qualificação deles na parte de vestuário e, para a coleção Revoada, realizamos com eles o trabalho de inspiração, de desenvolvimento e produção das peças. Entendemos que a indústria brasileira está dando o exemplo, junto com o Ministério Público do Trabalho, que participou desde a origem desse projeto, de que é possível recuperar pessoas através da educação e da ocupação, do trabalho digno, de uma perspectiva de autossustentação”, disse o diretor regional do SENAI-RN, Rodrigo Mello.

O procurador-chefe do Ministério Público do Trabalho, Gleydson Gadelha, também ressaltou que “criar condições para que as pessoas privadas de liberdade possam ter a oportunidade de aprender uma profissão é oferecer a elas uma perspectiva de futuro digno”. “A reinserção social, ou seja, proporcionar meios para que as pessoas privadas de liberdade deixem o sistema prisional melhores do que quando entraram, com capacidade de geração de renda, é um dos objetivos do MPT. Isso tem reflexo positivo na sociedade, contribuindo com o aumento da segurança e na diminuição dos índices de reincidência criminal”, frisou, destacando que, nesse projeto, “a moda foi apresentada como um fio condutor de liberdade”. “E não são só 15 pessoas envolvidas, são 15 famílias envolvidas, são 15 futuros envolvidos”.

O MPT participou da iniciativa destinando recursos frutos de condenações e multas trabalhistas para viabilizar as atividades de qualificação. A apresentação da coleção no desfile desta terça-feira, disse o procurador-chefe, “simboliza o poder da capacitação”.

A presidente do Sindicato das Indústrias de Fiação e Tecelagem do Rio Grande do Norte (SIFT-RN), Helane Cruz, também destacou a importância do projeto, afirmando que “o desenvolvimento econômico e humano não deixa ninguém para trás”. “Independentemente de qual condição nós tivemos no passado, eu acho que a gente tem o direito de recomeçar”, disse e complementou: “Enquanto presidente do Sindicato de Fiação e Tecelagem, eu apoio todas as causas que entendo que socialmente a gente pode aportar e o mínimo que a gente pode fazer é ser ponte para esses projetos”.

Foto: Wendell Guilherme

O lançamento da coleção Revoada integrou a programação de desfiles no encerramento do GINGA Moda RN e contou com a participação do diretor regional do SENAI-RN, Rodrigo Mello, do diretor superintendente do SEBRAE-RN, Zeca Melo, do diretor técnico da instituição, João Hélio Cavalcanti, do secretário de Estado da Administração Penitenciária do Rio Grande do Norte, Helton Edi, da secretária de Estado da Cultura, Mary Land Brito, do procurador-chefe do MPT, Gleydson Gadelha, do vice-procurador chefe do MPT, Xisto Tiago de Medeiros Neto, da sub-procuradora geral do órgão, Ileana Neiva Mousinho, e do professor doutor em dança da UFRN, Sebastião Sales, em performance que abriu caminho para a entrada das peças na passarela.

O GINGA foi realizado nos dias 27 e 28, em Natal, por meio de parceria entre o SENAI Moda, o SEBRAE-RN e a Secretaria de Estado do Desenvolvimento Econômico (Sedec), com apoio da Federação das Indústrias do Estado do Rio Grande do Norte (FIERN), da Associação de Moda do Rio Grande do Norte (AMO-RN), da Associação Seridoense de Confecções (Asconf), do Sindicato das Indústrias de Fiação e Tecelagem em Geral do Rio Grande do Norte (SIFT), do Sindicato das Indústrias de Vestuário do Rio Grande do Norte (SINDIVEST) e do Sindicato das Indústrias de Bonés e Chapéus do Estado do Rio Grande do Norte (SINDIBONÉS). Riachuelo, Instituto Riachuelo, Vicunha, Bonor e Grupo NS foram patrocinadores.

Foto: Wendell Guilherme

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Sobre Juliska

Juliska Azevedo é jornalista natural de Natal-RN. É gerente de comunicação do Sistema FIERN e sócia da agência Ska Comunicação, atuando como assessora de comunicação e consultora para instituições e lideranças. É pós-graduada em Assessoria de Comunicação e cursa MBA em Liderança e Gestão e Inteligência Artificial, pela Saint Paul/Exame; tendo atuado como professora no ensino superior.

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