Se antes a TV atuava como centro de convívio social da família, hoje, com o desapego a horários da grade de programação, as pessoas têm se reunido menos em frente a televisores. O consumo de conteúdo, como aponta Eduardo Simon, CEO da DPZ&T, passou a concentrar-se em smartphones, tablets e computadores, acessados em momentos e locais diversos.

Porém, em tempos de novo coronavírus (Covid-19), a maior permanência das pessoas dentro de casa voltou a intensificar a relação da população com a TV. Na grade linear, o jornalismo e entretenimento tomaram o espaço do esporte e de parte das novelas que estavam no ar. No digital, emissoras ampliaram suas estratégias de streamings.  O novo momento da TV brasileira, além disso, sinaliza uma nova possibilidade de os canais comercializadas publicidade.

Ainda nos tempos pré-novo coronavírus, Viviana Maurman, head de mídia e marketing sciences da R/GA, já via a necessidade de reinvenção do meio TV. “Com a migração de parte do investimento publicitário para o digital, nunca foi tão importante buscar soluções que melhor se adaptam às necessidades de anunciantes e, principalmente, dos consumidores”, explica.

Para a profissional da R/GA, o modelo de investimento alto para anunciar em TV deixou de ser atrativo para parte das marcas, que querem dialogar diretamente com seus clientes – é de modo cada vez mais segmentado. “Quando a realidade é receber, dentro de um determinado horário, a grade comercial, o canal decide quando assistirei àquele conteúdo. Quando vou para uma realidade onde o conteúdo é consumido na hora e no device em que quero, a publicidade que interrompe começa a perder sentido e, sobretudo, eficiência, porque não é mais desejada para as marcas”, complementa o CEO da DPZ&T.

Isso, segundo Simon, representa um grande desafio para agências, anunciantes e veículos, uma vez que o mercado foi moldado acostumado com o formato. Os modelos de negócios e mídia, praticados pela setor publicitário, hoje exigem multicanalidade. “O que importa é conteúdo”, diz Viviana. Antes dos perigos de disseminação do novo coronavírus, a participação de marcas em enredos de programas de TV vinha crescendo, o que, de acordo com Viviana, podia ser visto como empurrão em direção a uma mudança mais acentuada no mercado publicitário.

“Antes, para qualquer mudança de rota das emissora, levava-se anos”, afirma. O merchandising de novelas, que nos últimos tempos vinha ganhando espaço relevante na TV brasileira, por exemplo, foi interrompido junto com a gravação de algumas produções. “A não-produção, neste momento, é uma questão circunstancial atrelada à crise que estamos vivendo. Então, quanto antes voltarmos a produzir conteúdo nacional,  retornaremos a uma realidade em que veículos, anunciantes e agências estarão buscando novos formatos”, acrescenta o CEO da DPZ&T.

Coronavírus e as lições dadas à publicidade de TV

O trabalho de reformulação da publicidade na TV no Brasil iniciou quando as emissoras passaram a oferecer novos formatos e consultorias estratégicas, bem como ferramentas para anunciantes. “Agora, o que a gente vê, neste momento, é a redescoberta da paixão que o brasileiro tem pelo consumo de conteúdo de qualidade. Então, quando nos deparamos com a falta que o futebol faz, assim como a paralisação na produção das novelas, percebemos o quanto tudo isso é bastante relevante nas vidas dos brasileiros e, consequentemente, das marcas e das agências. Estamos revalorizando o papel do entretenimento na vida das pessoas”, diz Simon.

Para Viviana, da R/GA, a lição que o período de novo coronavírus trará para a publicidade brasileira de TV é de que o meio continua sendo o de mais credibilidade. “A população está atenta às televisões como nunca, para se atualizar sobre a pandemia causada pelo vírus e se entreterem, em tempos de isolamento”, diz. O número de jovens e crianças e de pessoas das classes AB consumindo conteúdo na TV, o tempo médio de permanência dos dispositivos ligados e adesão ao consumo multicanal estão crescendo, o que representa oportunidade para as marcas.

Fonte: Portal Meio e Mensagem

Disponível em: https://www.meioemensagem.com.br/home/midia/2020/04/03/coronavirus-estimula-evolucao-da-publicidade-de-tv.html